Após décadas focado em desenvolver jogos de uma das mais famosas franquias do mundo, a Game Freak apresenta o seu primeiro projeto AAA próprio, Beast of Reincarnation. Publicado pela Fictions, o jogo apresenta um enredo muito manjado, acompanhada de uma jogabilidade impressionantemente fluida, confortável e poderosa.
Beast of Reincarnation é um RPG de ação hack’n slash de um jogador ambientado no Japão no ano de 4026. Na pele de Emma, também conhecida como A Seladora, o jogador está sempre acompanhado de seu grande companheiro cachorro, Ko. Ambos lutam juntos para acabar com o mal em uma terra pós-apocalíptica devastada por uma corrupção da natureza que destruiu a Terra.
Nada de novo
A história de Beast of Reincarnation apresenta tanto personagens quanto um mundo que já nos são muito familiares (e possivelmente cansativos), como explicado acima: o título traz mais um mundo pós-apocalíptico, humanidade em extinção, no qual a esperança de tudo jaz no “escolhido”, nesse caso a Emma. Uma protagonista que contém o estereótipo apático, que não compreende sentimentos humanos ou até mesmo o ideal de “livre-arbítrio”.
Isso não quer dizer que seja de todo ruim, apenas previsível e que pode acabar sendo considerado apenas como “mais um” em meio a outros jogos que seguem uma narrativa parecida, mas que apresentam mundos e personagens mais cativantes. Mesmo o Ko como parceiro acaba não sendo o suficiente para manter o interesse no enredo; o mesmo se aplica aos outros personagens que acompanham o jogador ao longo da narração.

A estrutura do roteiro foi onde mais me pegou, especialmente no início, onde colocam flashbacks em forma de tutorial (ensinando movimentação e combate), porém eu precisei descobrir tudo sozinho em segmentos anteriores. Isso fez com que a narrativa perdesse o ritmo inicial, tornando tais flashbacks irrelevantes de forma geral.
Devo mencionar que a história de Beast of Reincarnation como um todo parece apresentar simbologias e filosofias culturais que me passaram batido na jogatina por falta de conhecimento. Entretanto, seria interessante se tivesse um glossário no menu ou uma espécie de diário de algum personagem.
Apesar da falta de carisma, a decisão de ser um mundo rico em fauna e flora e não mais uma ficção científica onde tudo é deserto e robótico torna a experiência mais agradável aos olhos, com cores mais vivas e rica em vegetação, onde a movimentação e o combate brilham em meio a tais cenários.

Uma mobilidade satisfatória
É muito fácil dizer que a mobilidade e o combate de Beast of Reincarnation são o ponto mais alto do jogo. Para explorar, Emma possui uma espécie de gancho (grappling hook) que ela pode usar em lugares específicos espalhados pelo mapa ou até mesmo em pontos criados por ela e/ou por Ko. Além disso, ela também tem uma espécie de pulo duplo, porém melhor: após o primeiro pulo, ao segurar o botão, uma raiz a ergue para cima até certo limite.
Apesar de apresentar paredes invisíveis em locais específicos, o jogador é bem livre para subir e ir aonde quiser, sempre acompanhado de uma batida em lo-fi tocando ao fundo.
Somente essas duas mecânicas já complementam muito bem a movimentação de Beast of Reincarnation ao longo de todo o jogo, mas também são muito úteis para o combate. Equipada com uma katana, Emma também utiliza um arco e flecha e uma mini besta como armas de alcance, mas o foco é em lutas corpo a corpo um pouco aos moldes de Sekiro.
Algo que pode frustrar alguns jogadores de Action RPG é o fato de que Emma utiliza somente uma katana; não existem outros tipos de arma além dos já citados, mas isso não quer dizer que o combate é limitado, muito pelo contrário. Em meio aos golpes de katana, Emma pode utilizar diversos Ataques Florais – que são desbloqueados ao longo do jogo –, golpes devastadores que utilizam uma barra especial destacada no rodapé, que é necessário ser tanto agressivo quanto defensivo para poder carregá-la.

O que você mais vai fazer é aparar (parry) os golpes dos inimigos para carregar tal barra e ativar a passiva da katana equipada (e obviamente não tomar dano), uma vez que a esquiva funciona melhor em golpes com marcador vermelho.
Os combos são muito fluídos e prazerosos; Beast of Reincarnation realmente traz a sensação de poder ao longo da história ao enfrentar diversos inimigos com tais golpes junto de Ko, que complementa o dano com habilidades ativas e passivas que podem ser equipadas no inventário, assim como os equipamentos de Emma.
A simplicidade de melhoria de personagem e inventário do jogo também merece outro destaque. Tanto Emma quanto Ko ganham níveis e possuem somente três atributos para usar os pontos; tudo bem intuitivo e claro ao mostrar “o que melhora o quê”. Além disso, pontos ao eliminar inimigos são acumulados para gastar em uma árvore de habilidades de cada um, melhorando os Ataques Florais de Emma e as habilidades ativas e passivas de Ko.
Tudo funciona muito bem e em ótima harmonia. Quanto mais se avança na história, mais fácil Beast of Reincarnation começa a ficar devido à quantidade de ataques/defesas que o jogador possui, mas outra coisa que ajuda nisso também é o fato de os inimigos se repetirem muito.

Faltou mais criatividade
A pouca variedade de inimigos foi o que me deixou um pouco chateado, mas não me tirou do jogo, devido ao combate satisfatório. O maior incômodo foi a constante repetição de chefes; por mais que a luta ocorresse em lugares diferentes, a variedade era pouca.
O mesmo pode ser dito dos inimigos comuns encontrados ao longo de Beast of Reincarnation. Depois de passar o terceiro mapa, eu já vi praticamente todas as variantes deles, e isso acaba tornando o jogo trivial, uma vez que os inimigos não variam nem seus golpes, o que torna o reconhecimento de padrão dos mesmos mais viável. O problema mesmo acaba sendo o acúmulo deles; combate um a um ou até dois é mais recomendado.

Beast of Reincarnation apresenta potencial
Beast of Reincarnation é um jogo que me cativou muito na questão de jogabilidade, remetendo a títulos como Stellar Blade, Ninja Gaiden e até mesmo Nier Automata. A falta de simpatia para com a história e os personagens é completamente salva pelo combate intenso e pela movimentação fluida.
A versão para PC deixa um pouco a desejar devido a certos problemas de otimização e queda de FPS constante, mesmo ao utilizar upscaling e com os gráficos no médio em uma GTX 3060 Ti (o jogo ainda assim é bonito).
O título também está totalmente localizado em PT-BR tanto em suas interfaces quanto nas legendas; entretanto, sinto que algumas traduções encontradas na Árvore de Habilidades geram confusão no entendimento das mesmas.
A Game Freak traz um ótimo título que pode surpreender muitos e apresenta um enorme potencial, mas fica o questionamento se Beast of Reincarnation é um jogo que as pessoas vão esquecer daqui alguns meses ou não.
Beast of Reincarnation: Beast of Reincarnation é um RPG de ação com jogabilidade fluida e combate prazeroso, inspirado em grandes nomes do gênero que apresenta grande potencial, mas peca pela história previsível e mal estruturada, além da baixa variedade de inimigos e chefes repetitivos. – Otto