Review – Assassin’s Creed Shadows
Observando em retrospectiva, parece até estranho pensar que Assassin’s Creed Shadows está prestes a ser lançado após a Ubisoft não ter tido qualquer lançamento relevante da série em 2024. Depois do “retorno às raízes” proporcionado por Mirage, a companhia voltou a explorar o lado RPG da franquia, que teve no extremamente bem-sucedido Valhalla (2020) seu exemplo mais recente.
Embora a franquia tenha permanecido relevante desde seu último capítulo, a situação de sua criadora já é bastante diferente. Em meio a uma crise financeira sem precedentes, a Ubisoft vê em Shadows a chance de ter um “respiro” e um sucesso de vendas após títulos como Star Wars Outlaws apresentarem resultados decepcionantes.
Mas será que os esforços dedicados a Assassin’s Creed Shadows, que incluíram dois adiamentos para ajustes, serão suficientes para isso? A resposta para essa pergunta complexa você não encontrará nesta análise — mas, se sua dúvida era se o capítulo oferece uma boa experiência, felizmente temos um veredito positivo.
Assassin’s Creed Shadows finalmente leva a série para o Japão
Desde a revelação dos primeiros materiais promocionais, a Ubisoft deixou dois elementos evidentes: o jogo traria a série para o Japão e ofereceria um sistema de dois protagonistas. Contrariando expectativas, o primeiro aspecto não resultou em uma mera “reprodução” de Ghost of Tsushima, da Sucker Punch.

Embora haja semelhanças entre os jogos, eles se diferenciam tanto na abordagem da ambientação quanto na jogabilidade e na narrativa. Em muitos aspectos, o título mais recente leva vantagem por explorar um período histórico mais rico, permitindo que sua história alcance lugares mais distantes.
E, nesse sentido, não há dúvidas: entre a shinobi Naoe e o samurai Yasuke, a primeira, dentre eles, é sem dúvida a protagonista da trama. Tanto que, após a introdução, ela se torna a única escolha possível por pelo menos 10 horas iniciais de gameplay — em minha experiência, levei 14 horas até reencontrar Yasuke em uma das cenas mais impactantes.

Isso não é ruim, já que permite que a narrativa desenvolva muito bem a personagem, suas motivações e como ela se encaixa no contexto geral da trama. Ela começa durante os momentos finais do que ficou conhecida como o período Sengoku, no qual os lordes feudais que controlavam o Japão lutavam frequentemente por territórios.
Um dos responsáveis por unificar o país e colocá-lo de volta nas mãos de um governo central foi Oda Nobunaga, que desempenha um papel central na trama. Também temos contato com figuras importantes como Tokugawa Ieyasu, Toyotomi Hideyoshi, Hattori Hanzo e outros nomes que encontram até hoje lugar na cultura popular, para além dos limites da tradição e livros de história locais.
Uma história mais bem-resolvida
O mais interesse nesse sentido é que Assassin’s Creed Shadows sabe manter a filosofia da série de, ao mesmo tempo que coloca seus protagonistas em momentos-chave da história, garante que eles sempre operam nas sombras. Nesse sentido, Yasuke é muito bem utilizado, dado o fato de que ele foi uma figura real, mas da qual poucos registros históricos restaram.

A Ubisoft aproveita essas “brechas” na história para encaixar bem o personagem em um roteiro que, se pode demorar um pouco a se desenvolver, nunca perde o foco. Nesse sentido, o título é muito mais interessante do que Valhalla, cuja aventura principal demorava a engrenar e perdia sua objetividade em meio a diversas atividades de mundo aberto.
Não que Shadows não tenha muitos desses elementos, mas todos parecem existir de forma muito mais coesa e conectada à trama principal e ambientação da aventura. Como o jogo se passa em um período de guerras, nos quais muitos grupos e mercenários lutavam pelo poder, os diversos guerreiros que precisamos enfrentam parecem se inserir de forma natural na trama principal.
Também ajuda muito o fato de que a estrutura de “generais”, que a foi introduzida na franquia em Origins, finalmente parece se encaixar na estrutura central do roteiro. Mais do que representar um desafio mecânico, o grupo contra o qual os protagonistas juram vingança tem papel central no que acontece na história — e caçá-lo provoca uma progressão natural da exploração, nos levando a descobrir outros territórios, missões secundárias e aliados.
Mas não se engane: Assassin’s Creed Shadows mantém a tradição da série de entregar jogos realmente enormes, cujas atividades secundárias nem sempre valem à pena. Exemplo disso são as infinitas missões que podemos obter na base principal ou nas diversas bases secundárias que mantemos pelo mundo — embora úteis para obter recursos de construção, elas são repetitivas e em nada ajudam no desenvolvimento de personagens, a não ser do ponto de vista meramente mecânico.
O Assassin’s Creed mais gostoso de jogar em muito tempo
Por falar em partes mecânicas, é preciso elogiar o trabalho que a Ubisoft fez no desenvolvimento de seus protagonistas. Embora compartilhem algumas mecânicas básicas, Naoe e Yasuke são usados de forma muito diferente e cumprem propósitos bastante específicos — eles realmente são personagens bem distintos, ao contrário dos gêmeos Frye de Syndicate.
Minha preferência pessoal foi pela shinobi, que entrega a “experiência tradicional” da série. Capaz de se esgueirar silenciosamente, ela tem o poder de ver através de paredes para marcar inimigos, consegue abatê-los de maneira furtiva — inclusive usando as excelentes kunais — e, em geral, é a escolha certa para quem gosta de ser furtivo e abater adversários sem que eles saibam o que os atingiu.

Já Yasuke é a opção “porradeira”, que bate muito forte e resiste muito mais a qualquer ataque que recebe. Apesar de isso ser bem legal, sinto que o uso do personagem acaba sendo mais situacional e sua falta de discrição traz muitas desvantagens em alguns contextos — ao invadir um castelo, por exemplo, é muito mais provável que ele motive um guarda a acionar um alarme, obrigando o jogador a lidar com uma quantidade gigante de inimigos.
No entanto, ele é uma opção sem igual nas batalhas contra chefes, podendo ser considerado até mesmo um “modo easy” em certas situações. Cada personagem pode usar três tipos diferentes de armas físicas (Yasuke possui duas armas de longo alcance), cada uma delas contando com uma árvore de habilidades própria.
Nesse sentido, Assassin’s Creed Shadows estimula o cumprimento de algumas atividades secundárias para que o jogador tenha uma evolução boa. Muitas delas rendem pontos de conhecimento, que são usados para destravar patamares superiores de habilidades — enquanto outras vão render os pontos necessários para destravá-las (subir de nível dá um único ponto necessário, não se mostrando a melhor opção nesse sentido).

A maneira como o sistema de evolução funciona é positiva e incentiva a não ficar preso somente nas lutas e missões principais da aventura. A Ubisoft também acerta ao deixar claro quais são as recompensas de cada atividade feita pelo jogador, o que compensa um pouco o fato de os verbos do jogo serem um tanto limitados.
Durante a maior parte de seu tempo no game, você vai escalar, correr, pular ou, com maior frequência, atacar adversários. A maneira como essas atividades são feitas é prazerosa e competente, mas nem mesmo isso apaga o fato de que fazer as mesmas ações por dezenas de horas uma hora cansa — regra que se aplica a basicamente qualquer game.
Brincando de casinha
Nos momentos em que não está nos campos de guerra ou tentando acabar com uma conspiração, você pode investir em melhorias para sua base — que não deve ser negligenciada sob nenhuma circunstância. De maneira relativamente rápida, ela vai destravando novas estruturas que garantem o upgrade de equipamentos e a capacidade de usar mais aliados durante a batalha, entre outras vantagens.
Esse local é totalmente personalizável e está ligado ao aspecto mais colecionista de Assassin’s Creed Shadows. Durante a aventura, temos contato com vários itens de enfeite, opções de portas e telhados, animais e objetos que podemos usar para dar uma cara única à base. No entanto, embora isso seja algo interessante de ver no jogo, não há qualquer vantagem real em dedicar tanto de seu tempo a ela.
Em minha experiência (com tempo limitado devido à necessidade de realizar um review), decidi usar a base de forma essencialmente utilitária, me focando na construção e upgrade de estruturas que trouxessem vantagens palpáveis. Isso não resultou no local mais atraente ou interessante de visitar, mas confesso que me surpreendi com algumas das interações entre os personagens que passam a habitar esse local conforme a história progride.
No que Assassin’s Creed Shadows precisava melhorar?
Embora a experiência geral do game seja positiva, não saio de Assassin’s Creed Shadows sem algumas críticas. A primeira delas envolve a parte técnica: a decisão da Ubisoft de inserir o Ray Tracing obrigatório no game o torna mais bonito, mas muito mais pesado — depois de rodar Valhalla e Mirage sem problemas, minha RTX 3080 finalmente deu sinais de que precisa de um upgrade ao tentar reproduzir alguns dos detalhes do game.
No entanto, mesmo com algumas áreas ajustadas para baixo, o título permaneceu muito bonito e mostra que a decisão da companhia foi acertada — embora isso certamente vá trazer dores de cabeça para quem tem hardwares mais modestos. Curiosamente, essa foi a única reclamação que tive sobre a parte técnica do game, que é surpreendentemente estável e raramente apresenta qualquer espécie de bug visual.

Assim, onde julgo que a empresa poderia melhorar são em aspectos de qualidade de vida. O maior exemplo disso é o sistema de equipamentos: durante a aventura, você vai acumular uma quantidade generosa de espadas, vestimentas, naginatas e outros objetos que nem sempre interessam.
Como em muitos outros RPGs, você pode vendê-los para comerciantes ou destruí-los em troca de recursos para upgrades futuros. No entanto, fazer isso é um processo chato e burocrático, marcado pelo manuseio individual de cada item — que é sempre acompanhado de uma animação toda vez que uma ação é realizada.
Ubisoft, por favor me ouça e, em uma atualização futura, coloque um botão destinado a “marcar como lixo” um item ou que permita vender ou destruir diversos equipamentos de uma única vez. Caso você faça isso, vai melhorar em muito a qualidade de vida do jogo e não vai mais me fazer carregar diversos itens de que não preciso simplesmente porque se livrar deles é chato e irritante.
Além disso, seria interessante não precisar mudar de personagem manualmente toda vez que é preciso iniciar um diálogo com uma pessoa específica — a troca podia ser automática e indicada por um aviso em tela. O jogo não ter essa opção é curioso, especialmente dado que a empresa teve o cuidado de, durante as viagens rápidas, oferecer a opção de trocar entre os protagonistas.
Vale a pena?
Entre muitos acertos — e alguns erros notáveis — Assassin’s Creed Shadows é uma entrada sólida na franquia que merece muito sua atenção. Pela primeira vez desde Origins, sinto que a Ubisoft conseguiu construir uma história interessante e bem centrada em seus personagens, que não se perde diante da grandiosidade e necessidade de preencher um mapa com ícones.

Ao mesmo tempo, a decisão da empresa de investir em jogos gigantes se volta novamente contra ela, resultando em uma experiência que, se é divertida em seu núcleo, pode se tornar cansativa depois de um tempo. Isso, somado a alguns problemas de qualidade de vida, faz com que o título não atinja todo o potencial que poderia ter — o que não faz com que ele deixe de ser muito bom, não me entenda mal.
Jogamos Assassin’s Creed Shadows no PC com uma chave fornecida pela Ubisoft Brasil.
O game chega às lojas no dia 20 de março com versões para Xbox Series X|S, PlayStation 5 e PC, via Ubisoft Store, Steam e Epic Games Store.
Assassin's Creeed Shadows: Assassin’s Creed Shadows é bem-sucedido em trazer a série para o aguardado cenário do Japão, trazendo uma dupla de protagonistas bem-construída e gostosa de controlar. Apesar de o jogo poder se beneficiar de um pouco mais de concisão, ele ainda se firma como um capítulo marcante na franquia e um ótimo RPG de ação. – Felipe Gugelmin